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Publicado em 31/08/2010 08:01:11 Categoria: Textos Livres

Adorável Senhora (Narrativa)

"Uma leitura de um velório que emociona e conforta por meio das palavras"

Antes de amanhecer o dia não havia muitas pessoas acordadas, pois era domingo. Ouço um toque que me desperta, do outro lado um amigo anunciou-me a partida de uma adorável senhora, partiu sem se despedir.

Permaneci parada, imóvel por alguns segundos, nem tive tempo de vagar em pensamentos, havia duas pessoas que precisavam muito de mim; liguei, o neto com a voz úmida solicitou minha presença sem expressar com palavras esse desejo. Vesti a primeira roupa que encontrei na gaveta e saí, coração acelerado, emoção aflorada, não sabia qual era minha real importância. As lembranças daquela senhora consumiam a minha mente, tentava rezar pela sua alma, mas era incomodada pelas memórias daquela que não era minha parente, mas amiga. O que dizer à família? Como poderei consolá-los? Pensei em muitas palavras, no entanto, resolvi não dizer nada e ser apenas eu calada; o silêncio torna certas ocasiões menos penosas.

Cheguei à cidadezinha que outrora vivi bons tempos com a adorável senhora e sua família. Avistei o neto, este veio ao meu encontro, meu coração parecia querer sair pela boca, ensaiava um infarto. Eu o amava e desejava tomar aquela dor para mim, um abraço estonteante cessou os meus pensamentos, o mais apertado dos últimos anos, talvez ele estivesse desejando se perder naquele abraço e pular aquela estação de sua vida. Logo avistei a neta, moça que escondia os olhos com lentes escuras, tentando em vão ocultar as suas lágrimas, aproximei-me, não disse nada, com um terço envolto à minha mão tirei seu disfarce, olhei em seus olhos e não encontrei a alegria que lhe era peculiar.

A casa da querida falecida acomodava naquela manhã: os filhos, netos, amigos e colegas, talvez uma sombra de remorso, som de gemidos, corpos amuados, alguns já sem forças, sem brilho, ar triste.

No cemitério, o caixão chegou para o que chamam de velório, os olhos inundaram-se em súbito, gritos presos nas gargantas, eu sentia o peso da dor alheia no meu colo, no meu ombro banhado. De algum modo o desconforto emocional e físico estava tirando a minha energia pouco a pouco, um silêncio tomou conta de mim, porém minha mente perdia-se em meio a questionamentos. Onde estaria aquela adorável senhora? Seu corpo já sem vida estava ali bem perto, mas e sua essência? Sua beleza e ternura?

Todos os indivíduos que ali chegaram, alguns que há muito não se viam, desconhecidos que prestavam condolências. Nessas horas as pessoas demonstram afeto e companheirismo, é admirável, porém não eficaz, perceber tudo isso no instante do adeus se houve uma vida inteira para tal.

O padre disse palavras de conforto que poucas pessoas ouviram com atenção, mais choro. A procissão levava o caixão, nunca mais se veria o corpo daquela adorável senhora, visível pela última vez, um punhado de terra, concreto, grande emoção, enfim, o fim. Talvez coubessem aqui mais reflexões, porém é simples e inevitável o fim, essa palavra de apenas três letras que modifica vidas, anula sonhos e planos desabam.

Colaborador:
Juliana Campos

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