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Publicado em 28/07/2009 12:56:35 Categoria: FIT

Leitura Crítica de "A margem"

"e repente este teatro pode muito mais do que entreter, e até mesmo transformar."

Um ruído
 
Dois bufões. Ou dois palhaços? Dois seres humanos? Dois mendigos? Dois assassinos? Dois perdidos? Dois marginais? Que mais?
O espetáculo “A Margem” da Cia. do Gesto, Rio de Janeiro, começa na escuridão. O que se pode enxergar sem luz? No palco havia barulho, grunhido, sons desastrados e desastrosos. Por fim, interrompendo todo o silêncio marginal, é nos revelada a atmosfera suja e periférica que estaria por vir.
O cenário segue uma linha realista. Com pouca luz, causa bagunça, desconforto e torna-se compatível e eficiente com o espetáculo. Misturados com lixo, madeiras, carretéis, objetos e dejetos, dois corpos em movimento. Duas almas vivas (ou mortas?) vivendo na mais profunda pobreza, nojeira, crueldade. Estes dois vivem suas vidas passando por diversas situações, onde para esquecer da fome e da miséria social em que estão inseridos, tentam ocupar o tempo com muita imaginação sejam elas de perigos, de conflitos, de diversão, de críticas, em meio a muito humor, e, muito humor negro, e, muito humor ácido, que de certa forma são os pontos altos da obra. Os dois atores, Ademir de Souza e Tania Gollnick, estão despojados em cena, seguros, confortáveis, o que lhes conferem um bom desempenho técnico e ótima sintonia.
A composição do espetáculo se dá através das várias cenas, perceptivelmente sem ligação uma com a outra, pois migram de um assunto ao outro sem a necessidade da lógica, porém, tudo se faz real, embora estejamos sentados em poltronas de um teatro. A nudez impressa pelos atores para dialogar com o catarro cuspido, com uma língua lambendo um pé imundo, a água da boca de um entrando na boca do outro, o contato físico, a voracidade em comer uma pomba com as próprias mãos, ao passo que provoca o espectador, causando nele as mais diversas e inusitadas reações, também o aproxima da realidade. Embora cômico, não há exageros. É triste e verdadeiro, e a cada esquina encontramos não só dois daqueles, mas duzentos.
A relação entre o bufão branco e o augusto é apenas gestual, com pitadas de gramelô super comunicativo. As cenas são engraçadas, a platéia se assusta, se enoja, mas se diverte.
Falar da humanidade, é falar do eu. É se expor, se implicar como artista e se colocar em cena verdadeiramente. E isso A Margem faz, pois é reflexo de muita coragem e dedicação o resultado da obra. Contudo, a mensagem chega truncada. Existe uma falha na comunicação, pequeníssima, quase insignificante, mas não deixa de ser um ruído. O espectador sente que é provocado, mas está imune ao jogo e à dança. Que dança?
Existe grande hibridismo de linguagens, e essa busca é admirável. Há clown, projeção multimídia, cinema mudo, teatro de sombras, e outras referências mais. O espetáculo é bom, mas não é tão gostoso quanto poderia ser. O espetáculo provoca, mas não saímos de lá provocados. É preciso rever aonde está o ruído. Um caminho é o confronto do realismo com as cenas fragmentadas. A projeção por exemplo é muito interessante, pois ressalta os próprios mestres e criadores do gênero, como Chaplin. Mas de onde surgiu um projetor daqueles? Se os dois estão passando fome, não seria mais fácil vender o projetor e comprar comida? O cuidado com alguns clichês também é importante ser analisado. Todo mundo fala da soberania americana, da estátua da Liberdade... do terrorismo... principalmente os humorísticos televisivos. Quando essa referência vem pro teatro, precisaria ser melhor colocada, reinventada.
Num espetáculo de bufões onde dois moradores de rua dividem o cotidiano na tentativa de estabelecer uma relação criativa com o mundo e viver situações grotescas e líricas, é preciso estar atento. De repente este teatro pode muito mais do que entreter, e até mesmo transformar.

 

Jef Telles

jefersonico@uol.com.br

* Texto produzido durante o Atelier de Crítica Teatral, realizado pelo FIT 2009 e ministrado pelo jornalista e crítico Kil Abreu.

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