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Publicado em 27/07/2009 19:36:38 Categoria: FIT

Comentário sobre "Crônica de José Agarrotado"

"“Menudo hijo de puta”"

O espetáculo Crónica de José Agarrotado, que tem um segundo título entre parênteses “Menudo hijo de puta”, se insere no que se convencionou chamar nos últimos anos de teatro físico, pelas próprias características da obra, que faz do uso do corpo e de sua movimentação no espaço o centro da ação.
Partindo destes dados físicos-corporais devemos prestar atenção ao título que aponta para um personagem, José, que está amarrado, bloqueado, limitado de acordo com o verbo agarrotar, que aqui se transforma em um qualificativo de José. E mais, o segundo título, menudo hijo de puta, que pode ser traduzido ao português como “grande filho da puta”, já carrega em si uma irreverência e significados múltiplos, entre os quais podemos aventar o de ódio e desprezo por José.
O cenário aponta para uma limitação física e, por que não, psicológica. Estamos diante de paredes nuas, sem portas e sem janelas aparentes, com alguns objetos na cena: duas cadeiras, uma mesa,  sobre ela uma luminária e uma lixeira no fundo do cenário.
A principio os diálogos são mínimos e abafados pela música, um rock pesado num volume altíssimo. Nas conversas o elemento cíclico é predominante, um ator pergunta, o outro responde com uma pergunta, e assim num crescendo, num jogo de espelho e anulação de personagens e de pensamentos. Quando a segunda música é colocada, um flamenco, a sedução entra em cena, um personagem chama o outro para a dança, para a alegria, que depois é interrompida. A ação é bipolar o tempo todo.
O que é claro no espetáculo é a relação humana, seja ela entre dois homens, duas mulheres (coisa que os casacos apontam às vezes) e, na minha opinião, consigo mesmo, com uma vontade interna, que podemos chamar de consciência, alter-ego, e que doentiamente caminha para o aniquilamento, seja ele físico, através da faca, ou psicológico, pela perda da razão, sugerido no final, quando o duplo desaparece deixando um dos personagens, talvez José, totalmente abandonado.
E um espetáculo inovador, moderno na sua própria concepção de enredo e direção, que é feita pelos dois componentes, que criam situações, experimentam e direcionam as atuações; e pelas possibilidades de comunicação que a peça cria com a platéia, que tem como característica fundamental uma quase inesgotabilidade de caminhos a serem seguidos.
 

 

João Eduardo Hidalgo

Professor - Unesp/Bauru

* Texto produzido durante o Atelier de Crítica Teatral, realizado pelo FIT 2009 e ministrado pelo jornalista e crítico Kil Abreu.

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