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Publicado em 18/04/2011 22:50:50 Categoria: Teatro

Um sonho de Brasil, um sonho para o teatro riopretense

"Espetáculo da Cia. Cênica aponta para um salto no processo criativo do teatro da cidade"

“Acordes” foi concebido coletivamente e – por que não dizer? – de forma política. Será que é possível falar da ditadura militar brasileira sem mencionar os políticos da época e falar somente sobre o impacto desta à gente comum? Fazer uma escolha como essa seria andar no fio de uma navalha. E parece que esta é uma das possibilidades de interpretação da obra teatral que se apresentou na última sexta-feira no Teatro Municipal Nelson Castro, sob direção de Fagner Rodrigues.

O espetáculo apresenta-se como uma colcha de retalhos de sensações e ideias sobre o período vivido por muitos e lembrado por outros tantos. É visível, na pele dos atores, que a paixão em cena não foi vivida por alguns deles, mas emprestada de outros. E talvez esse seja um dos grandes acertos da montagem.

A aclamada arte de manifestar fez valer-se. Os artistas não usaram nenhuma persona para falar sobre o regime. Foram eles próprios que vivenciaram suas impressões sobre o processo de pesquisa, o que imprimiu profundidade e dinâmica ao espetáculo. A ausência da quarta parede e a relação de proximidade e interação com o público aconteceram na medida certa para uma plateia íntima e familiar ao elenco. A não-interpretação possibilitou compartilhar cenas e momentos comuns a muitos dos presentes, revivendo marcos culturais da época, e fazendo lembrar as saudosistas canções publicitárias.

As relações entre o passado e o presente deram uma visão otimista do Brasil atual e mostraram que o sonho de liberdade vivido pelos militantes estava certo. Se a arte teatral pode ser um ato político, a montagem mostra uma tênue linha entre uma forma contemporânea e o palanque. Uma opção clara e bem direcionada da visão política e artística do grupo. Tal uniformidade de pensamento formou um esboço nas maquiagens e figurinos, mas que ainda tem um caminho a percorrer para encontrar uma forma final. Detalhes técnicos como esses, aliados às sombras no rosto dos atores em momentos inoportunos, deixou a plasticidade do espetáculo com um pé ainda na sala de ensaio.

As canções, bem preparadas, recortadas e ensaiadas, serviram mais a uma ambientação da peça do que ficaram a serviço da construção de uma dramaturgia da cena, embora a interpretação pessoal e visceral das canções por Beta Cunha mereça destaque e possa servir de inspiração aos outros atores. Talvez seja esse o momento onde o coro da juventude – que representou o movimento estudantil da época – tenha a aprender com os conselhos e advertências da grande mãe.

Dar luz a um sonho não é tarefa fácil: fazer nascer um espetáculo, um novo Brasil, uma nova forma de se fazer teatro é processo doloroso e que demanda tempo, determinação, força de vontade e muito, muito trabalho. Parece que tanto os militantes quanto a Cia. Cênica sabiam que este é o caminho.

Colaborador:
Joice Zorzi

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